Mistérios da Aprendizagem

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Roberte Metring para o Jornal Folha Dirigida – Caderno de Educação.

Especialista nesta nova área (neuropsicologia) e em sua capacidade de investigação do processo educacional, o professor Roberte Metring ressalta que esse campo do conhecimento pode trazer várias contribuições para o processo de aprendizagem.
Os professores, de forma geral, desconhecem o cérebro que aprende. Os processos pedagógicos ainda são apresentados como se o ser que aprende vivesse nas nuvens, fora do campara entapo biológico da relação ensino-aprendizagem”, comentou o especialista que, nesta entrevista, entre outras coisas, define o que é Neuropsicologia, como suas descobertas podem auxiliar no processo de ensino e aprendizagem, a ausência das descobertas da ciência no trabalho em sala de aula e das possibilidades que os estudos podem trazer para o trabalho dos professores. “Um professor com alguma capacidade articulatória, que consiga ligar os pontos entre os processos pedagógicos e a forma como o cérebro aprende, pode usar dos fundamentos neuropsicológicos para sua atividade, seja na docência, bem como na preparação de suas aulas”, destaca Roberte Metring, que é psicólogo, psicoterapeuta, psicopedagogo e pesquisador em Neuropsicologia da Aprendizagem.

FOLHA DIRIGIDA – O SENHOR É AUTOR DO LIVRO NEUROPSICOLOGIA E APRENDIZAGEM – FUNDAMENTOS NECESSÁRIOS PARA PLANEJAMENTO DO ENSINO. DE QUE FORMA A NEUROPSICOLOGIA PODE CONTRIBUIR PARA O MELHOR PLANEJAMENTO DAS ATIVIDADES DO PROFESSOR EM SALA DE AULA?

Roberte Metring — A neuropsicologia estuda a relação entre sistema nervoso e comportamento. Toda aprendizagem só se realiza verdadeiramente quando há modificação das relações sinápticas no cérebro, provenientes de um processo de organização da informação através da fixação, o que chamamos de memórias. Se um professor leva em consideração as organizações neurológicas envolvidas na aprendizagem, se ele entende o que o cérebro faz com a informação que recebe, e que a fixação da informação ocorre mais facilmente quando há relevância e energia emocional associadas, então pode preparar o conteúdo do ensino com mais sapiência e propriedade.

– PODERIA NOS EXPLICAR, DE MANEIRA GERAL, O QUE É A NEUROPSICOLOGIA E QUAIS OS SEUS OBJETIVOS?
A Neuropsicologia é uma ciência multifacetada que derivou a principio dos estudos da Neurologia e da Psicologia, em particular das alterações comportamentais provenientes de acidentes envolvendo o sistema nervoso. Hoje é uma ciência pluriprofissional que aceita a interveniência de profissionais de todas as áreas que envolvam análise ou entendimento do comportamento humano. Seus objetivos são identificar que áreas do cérebro estão associadas a quais comportamentos. Lembremos que comportamento aqui não é exatamente o comportamento motor manifesto, mas qualquer intenção que possa gerar respostas ou aprendizagem.

– DE QUE FORMA ELA PODE CONTRIBUIR COM O PROCESSO EDUCACIONAL, PRINCIPALMENTE COM A MELHORIA DO APRENDIZADO?
Considerando que os estudos atuais, decorrentes de instrumental tecnológico altamente sofisticados, podem mostrar como um cérebro funciona “in vivo”, e que esses estudos corroboram teóricos de um passado recente, como Piaget e Vigotsky, quando afirmam que o cérebro se desenvolve em partes e em tempos diferentes, é possível pensar com mais exatidão sobre a oferta de determinados estímulos para determinados grupos de aprendizes conforme seus níveis de desenvolvimento e suas necessidades para aquele momento. Sempre que temos um cérebro recebendo aquilo com que pode lidar, e de forma significativa, temos um nível de aprendizagem muito maior e mais intenso que de outra forma.

– O SENHOR DIZ QUE A NEUROPSICOLOGIA PERMITE ENTENDER AS FUNÇÕES BIOLÓGICAS E OBJETIVAS DA APRENDIZAGEM. QUE FUNÇÕES SERIAM ESSAS?
Funções como a formação dos pensamentos abstratos, a formação de conceitos e juízos, a formação das memórias, a construção do mundo simbólico, a elaboração de regras e a produção de respostas inteligentes, tudo isso é decorrência do funcionamento do cérebro, da formação da sua rede neuronal.
Nada em nossa vida seria possível sem que esse funcionamento orquestrado do cérebro acontecesse através da organização neuronal e dos impulsos eletro-químicos através da produção e liberação dos neurotransmissores. A Neuropsicologia permite entender como tudo isso acontece.

– ATÉ QUE PONTO A APLICAÇÃO DE PRINCÍPIOS DA NEUROPSICOLOGIA É POSSÍVEL PARA UM PROFESSOR COMUM? É PRECISO TER FORMAÇÃO ESPECÍFICA OU, COM ORIENTAÇÕES BÁSICAS, É POSSÍVEL TRABALHÁ-LOS? POR QUE?
Para quem pretende atuar em avaliações ou intervenções neuropsicológicas é necessário conhecimento e formação específica sim, seja na aprendizagem acadêmica ou qualquer outro tipo de aprendizagem, tanto nova ou de recuperação pós-traumas. Porém, mesmo sem esses conhecimentos, um professor com alguma capacidade articulatória,que consiga ligar os pontos entre os processos pedagógicos e a forma como o cérebro aprende, pode usar dos fundamentos neuropsicológicos para sua atividade, seja na docência, bem como na preparação de suas aulas.

– OS PROFESSORES, DE MANEIRA GERAL, CONHECEM COMO O PROCESSO DE APRENDIZAGEM SE DÁ, DENTRO DO FUNCIONAMENTO DO CÉREBRO? ESSE CONHECIMENTO AJUDARIA, DE QUE FORMA, O PROFESSOR A ENSINAR MELHOR?
Os professores, de forma geral, desconhecem o cérebro que aprende. Os processos pedagógicos ainda são apresentados como se o ser que aprende vivesse nas nuvens, fora do campo biológico da relação ensino-aprendizagem. Se ensina muito sobre como ensinar, sobre as relações afetivas e emocionais do sujeito aprendente, mas não se ensina como se aprende, nem como se formam as relações afetivas e emocionais do aprendiz em sua base orgânica, ou seja, no seu sistema nervoso. Saber como isso ocorre simplesmente abriria um portal luminoso para os profissionais do ensino. Vejo isso nos cursos em que ministro aulas de Neuropsicologia: o brilho nos olhos dos acadêmicos quando articulam as informações e “veem”, onde as coisas acontecem.

– O PROFESSOR PODE COMETER ERROS, SEM TER A MENOR NOÇÃO DISSO, POR DESCONHECER COMO FUNCIONA O CÉREBRO DO ESTUDANTE DURANTE O APRENDIZADO? PODERIA NOS DAR ALGUNS EXEMPLOS DE ERROS, PRINCIPALMENTE, DOS MAIS COMUNS?
Sim, podem, por ignorância (no sentido lato da palavra). E os cometem com muita frequência. Por exemplo, podem confundir um aluno com alguma dificuldade específica de aprendizagem em decorrência de um problema neurológico, com um aluno preguiçoso ou rebelde. Profissionais do ensino que tem noção prévia sobre esses fundamentos podem muito colaborar para um exame mais detalhado, diagnóstico mais preciso e um tratamento assertivo dos problemas de aprendizagem do aprendiz, inclusive com um melhor planejamento do ensino daquele aluno.

– UMA DAS MAIORES DIFICULDADES DOS ESTUDANTES É, SEM DÚVIDA, COM A MATEMÁTICA, EM ESPECIAL, O RACIOCÍNIO LÓGICO. A NEUROCIÊNCIA JÁ TEM RESPOSTAS SOBRE COMO ESTIMULAR, DE MANEIRA MAIS EFICIENTE, ESSE TIPO DE APRENDIZADO NOS ALUNOS?
Sim. Existem hoje vários protocolos neuropsicológicos específicos para atender a essa demanda, com bastante acurácia. Esse estímulo pode ocorrer por várias vias, tanto no treinamento de atividades (a Psicopedagogia participa muito nesse tipo de intervenção) até chegar aos recursos de neurofeedback, com treinamentos específicos que podem ser monitorados “in vivo” e de forma imediata, permitindo verificar se as áreas do cérebro adequadas estão respondendo conforme esperado.

– OS AVANÇOS DA NEUROCIÊNCIA E DA NEUROPSICOLOGIA AINDA ESTÃO MUITO DISTANTES DAS PRÁTICAS PEDAGÓGICAS DE SALA DE AULA? COMO FAZER ESSA APROXIMAÇÃO?
Eu inverteria a questão para dizer que as práticas pedagógicas ainda estão muito longe dos avanços científicos das neurociências. Minha experiência mostra que muito menos de 10% dos profissionais do ensino hoje  estão acessando as descobertas neurocientíficas, e dos que o fazem, poucos são os que utilizam essas informações em sua prática diária. Essa aproximação pode ser realizada através de divulgação de material em linguagem mais acessível, já que os jargões das neurociências ainda são pesados para muitos leigos, seja em livros, palestras ou outro tipo de atividade. Escolas de forma geral deveriam incentivar mais eventos de divulgação nessa área, num primeiro momento. Formações especificas devem ser pensadas para um segundo momento. A inserção dos conhecimentos neuropsicológicos na grade de formação de docentes também seria muito bem vinda. De certa forma, já se começa a pensar nisso.

– OS CURSOS DE FORMAÇÃO DE PROFESSORES DÃO A DEVIDA ATENÇÃO ÀS CONTRIBUIÇÕES DA NEUROCIÊNCIA PARA A EDUCAÇÃO? EM QUE ESSES PRINCÍPIOS PODERIAM CONTRIBUIR COM A FORMAÇÃO DESSES DOCENTES?
A resposta é não. Infelizmente, no Brasil, os cursos de formação de professores, na sua maioria, ainda continuam batendo na tecla conteudista, onde os professores tem a obrigação de replicar a informação, e não em gerar conhecimentos, seja no ensino fundamental, como em altos graus universitários. Se os princípios neuropsicológicos forem inseridos nas grades curriculares, certamente que a relação ensino-aprendizagem receberá um upgrade fantástico. Certamente que poderemos ter uma educação mais atuante, significativa e transformadora. Certo também que nesse quesito, as questões éticas e morais precisam ser incorporadas, porque ao conhecer a máquina pensante humana, mau uso também poderá sobrevir.

FONTE: JORNAL FOLHA DIRIGIDA – CADERNO DE EDUCAÇÃO – 17 a 23 de abril de 2012. 

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Sucesso e paz.
Varekai (onde quer que seja)
Roberte Metring – CRP 03/12745

Não me peça explicações, não as tenho. Eu simplesmente aconteço.
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